quinta-feira, 13 de julho de 2006

O vale

foto de Bob Wolfenson

Não sou eu quem cava esse enorme vale entre o que sou e o que quero ser. Ele me foi dado de presente ao nascer e centenas de almas, que não posso ver nem sentir, almas cegas e obedientes a não sei quem, cuidam diariamente para que se torne cada vez mais fundo e largo. Maldito vale que não vejo mas sinto crescendo diante de mim. Incansáveis almas que eu odeio mas que, sei, trabalham a mando de alguém que me ama. Ó, mistura maldita de amor e ódio. Ó criatura por trás de tudo, calada e paciente que se move devagarzinho e não me deixa em paz. Ó tortura cruel: mandar-te embora de vez e perder teu amor, ou continuar contigo ao meu lado e ser vítima de teu ódio?
Publicado opela primeira vez em 28/02/2004