quinta-feira, 3 de agosto de 2006

O dia em que Agostine se apresentou em Red River Beach

montagem feita por mim
As tardes de domingo costumavam ser monótonas no outono. Mas aquela tarde havia sido especial. Era 1955 e o circo acabara de chegar a Red River Beach. O céu estava azul como o mar e o mar azul como o céu. A temperatura era baixa o suficiente para fazer com que um gordo não suasse mas alta o bastante para derreter nossos sorvetes de pistache com cobertura de caramelo. Muitas pessoas haviam vindo das cidades vizinhas para ver o circo: O Grande Circo Pompéia e sua principal atração, a bela Agostine, a trapezista cega. Eu próprio, confesso, estava tão ansioso que pedi a meu professor da surpreendente arte da captura de fótons, ou seja, da fotografia, Marcelo Reis, que me acompanhasse e me ajudasse na exaustiva tarefa de registrar todos os movimentos da fabulosa acrobata. Tudo ia muito bem, o leão e seu domador haviam acabado sua apresentação, alguns palhaços já haviam tomado quedas e trocado tortadas entre si, quando o nome de Agostine foi falado em alto som no alto-falante. Eu me arrepiei e a platéia se silenciou. Não é sempre que se vê uma trapezista cega. Ela entrou no picadeiro guiada por um chimpanzé desconfiado e com enormes balões coloridos presos à cabeça por barbantes. Ele a largou perto do mastro com degraus que a levariam à plataforma do trapézio. Sempre em silêncio a platéia observava a tudo. Agostine subiu lentamente, degrau após degrau. Ao atingir a plataforma parou. Esticou o braço direito e segurou sua haste de apoio. Respirou fundo e lançou-se. Antes mesmo que se pudesse ver algo mais, uma enorme claridade se fez no centro do picadeiro. Todos os olhares, até então atentos a Agostine, se viraram repentinamente em direção ao clarão, que já havia sumido mas deixado uma espessa fumaça amarelada. Do meio daquela fumaça, uma moça saiu correndo e gritava: "Eu sou Madonna Louise Ciccone, acabo de vir diretamente do ano de 1982, vítima de um experimento da NASA com uma máquina do tempo". Agostine, sem perceber o que se passava, continuou em seu, não mais tão interessante, bailado acrobático. A platéia se dividia entre estupefatos, incrédulos, calados e atordoados. E Marcelo, meu professor, fotografava Madonna, sem parar.
publicado pela primeira vez em 04/11/2004