sábado, 1 de maio de 2010

O Sargento, Paulinho e a galinha de três olhos

O sargento era do tipo "ver pra crer". Coisas como fantasmas, discos voadores e todas aquelas histórias de homenzinhos verdes não lhe diziam muita coisa. Tudo era pra ser lógico, comprovado e preciso. Para tudo deveria haver uma explicação plausível, até para uma estranha figura, misto de água e galinha, retratada num  enorme poster que pendia na parede de seu quarto. Era uma serigrafia um pouco demodê mas intrigante: a enigmática ave teria três olhos.
Um dia seu netinho de oito anos, o Paulinho, o chamou no quarto, puxando-o pelo braço e perguntou, apontando para o tal poster:
__ Vô, por quê aquela galinha tem três olhos?
__ Não é uma galinha, Paulinho, é uma águia.
__ Águia é o quê?
__ É um animal voador, ao contrário da galinha, e também, ao contrário da galinha, é destemido e ágil.
__ O que é destemidóiagiu?
__ Destemido e ágil, Paulinho. Bom, destemido significa que ela não tem medo de nada e ágil quer dizer que ela faz tudo muito bem feito e com rapidez e precisão.
__ O que é precisão?
__ Precisão é... precisão é acuracidade, digo, perfeição.
__ Vô, é por isso que ela tem três olhos, então?
__ Digamos que sim. Na verdade não existem águias de três olhos mas esta foi assim pintada pois era um símbolo, provavelmente uma forma que o pintor encontrou para representar algo que tinha um significado para ele.
__ Vô, o que é significado?
__ Significado é... é explicação, relação com alguma coisa específica. Fui claro?
__ Não. Você parece com o Zeca quando fala: eu não entendo nada. Só é diferente porque eu consigo repetir as coisas que você diz mas não as que o Zeca diz. E sabe de uma coisa? Acho que foi ele que pintou essa galinha pois ele tem uma igualzinha e com três olhos e tudo.
__ Ah ah ah ah! Você é a gracinha do vovô. O Zeca é seu coleguinha da escola?
__ Não, ele é meu amigo que vem me visitar à noite. Ele entra pela janela e senta do meu lado na cama. Ele e a galinha. Acho que ele quer o quadro de volta. Devolve pra ele, vô.
__ Você andou sonhando, Paulinho?
__ Não, vô. Você devolve pra ele?
O velho sargento estava boquiaberto tamanha a criatividade do menino. Já escutara falar sobre amigos imaginários que acompanham crianças mas não pensou que isso acontecesse com seu netinho. Surpresas da psicologia infantil à parte, ele estava mesmo era atrasado pra sua partidinha de dominó. Pegou o casaco e saiu porta a fora.
À noite, de volta a casa, cansado e um pouco decepcionado por três derrotas consecutivas pro Gerônimo, um velhinho magricela dono de umas fazendas lá pelo sul, deitou-se e imediatamente pegou num sono leve. Algum tempo depois acordou sobressaltado com um barulho no seu quarto. No escuro, não pôde ver muito até que suas pupilas se acostumassem à pouca claridade. Andou cambaleante até a entrada do quarto e tateou a parede à procura do interruptor. Fez-se a luz e então viu: lá estava o pequeno Paulinho de pé ao lado do poster da águia com cara de galinha. O poster espatifado no chão. Numa bronca total, Paulinho disse:
__ Ta vendo, vô? Você espantou o Zeca e ele agora fugiu com o susto!
__ Paulinho! Ora, que maluquice é essa, menino? Vovô vai ter que te dar umas palmadas! Você estragou o pôster e ainda acordou o vovô com um tremendo susto!
__ Mas não fui eu, vô, foi o Zeca! Ele deixou cair quando se assustou com o seu ronco. Não fui eu!
__ E agora, o que eu faço com esse poster todo escangalhado, hum? Seu pai vai ter que consertá-lo! Mas antes ele vai te dar umas palmadas, viu?
__ Não, vô, não fala pro papai. Olha, o pôster tá quebrado mas olha só, o senhor pode ficar com a galinha verdadeira, a do Zeca, ela não foi, ficou aqui...
O ainda remelento general foi seguindo a direção que o bracinho miúdo de Paulinho apontava. No final de seu dedo indicador estava a mesinha de cabeceira, e nela, uma galinha de três olhos.